Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Chuva de outono


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Abro as janelas...
Há um punhado de folhas amarelas
pousadas no jardim...
No céu de outono,
sem alegria ou dono,
há clareiras de nuvens tagarelas
a sorrirem para mim...
As nuvens falam
e eu percebo as palavras delas...
- e são tão engraçadas! -
quando eu me distraio elas calam
e mandam sem recatos
umas fortes chuvadas!
Inundam os quintais,
as ruas, as estradas...
A minha rua é um grande oceano
onde molho os sapatos!

Maria Helena Amaro
17/11/2014

domingo, 14 de janeiro de 2018

Parabéns, meu amor!


(Ilustração de Maria Helena Amaro)

Parabéns, meu amor, sem bolo e velas.
Os anos não se contam ai nos céus...
As almas são joias, puras, belas
junto de anjos a cantar a Deus.

Este dia é o teu dia... o nosso dia...
Saudades... recordações... afetos...
A nossa prenda é uma Eucaristia
e os sorrisos ternos dos teus netos.

Tu não morreste, não, eu acredito.
Repousas em paz, nesse lugar bendito
onde não há doença, sofrimento, dor...

A morte é lenda, fantasia, mito,
é a passagem da terra ao infinito...
Viagem eterna ao milagroso amor.

Maria Helena Amaro
16/11/2014

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Vinte anos


(Fotografia de António Sequeira)

Eu tinha vinte anos... Muitos sonhos
ilusões tão puras, tão serenas,
a alma cheia de rimas, de poemas,
ideais nobres, luminosos, risonhos.

A vida era a montanha florida
que teria de escalar pé ante pé
com coragem, fortaleza e fé
pois no cimo era a terra prometida.

A vida era avenida ornamentada
era oceano que não tinha fim
era seara a abrir toda em flor...

Eu tinha vinte anos... Que loucura!
Acreditar que a alegria sempre dura...
que nada morre... saúde, paz, amor!

Maria Helena Amaro
16 de novembro de 2014.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Busca


(Fotografia de António Sequeira)

Ando a procurar no céu
as sumidas estrelas...
Quero agarrá-las
e metê-las
nas minhas mãos
de velha entontecida
que acredita
que por seu bem
ainda são tão belas...
Quando era pequenina
acreditava
que as estrelas eram as alminhas
dos que morriam sem pecados...
O céu enorme tinha muitas janelas
e então
Deus colocava-as a brilhar
em todas as janelas
para guiar na terra
os transviados...
Eu preciso urgentemente
de uma estrela
pousada na janela...
Estrela do Oriente...
Estrela de Alva...
Estrelinha do Norte...
Estrela dos Reis Magos...
Qualquer uma pode guiar-me bela
eu quero
eu preciso...
eu sinto...
eu quero tê-la.
Perco-me muito...
Tanto... nada... pouco...
a olhar o céu desesperada
que a vida se torna em labirinto
de dores e de procelas
sem estrelas...
num mundo meio louco.

Maria Helena Amaro
Novembro de 2014.  

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Braga, 2014


(Fotografia de António Sequeira)

Cheguei a Braga criança crescida
Aluna do Liceu Sá de Miranda
O rosto inteiro pendurado na varanda
do lar antigo situado na Avenida.

Braga foi a minha terra de adoção
Livros, estudos, recreios, orações,
cinema, bolos, serenatas e canções,
amizades tão puras, mão na mão.

Tudo passou, tudo foi, tudo morreu,
a Cidade de Braga envelheceu
E o lar da Avenida? Que procela!

A frescura da Avenida feneceu...
Só há cimento a espreitar o céu...
Braga morre em mim. Eu morro nela.

Maria Helena Amaro
Novembro, 2014



terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Dor


(Fotografia de António Sequeira)

A dor é persistente, ferida, dura,
como rude montanha a escalar.
Lá no cume tem raios de luar,
mas, na base há noite fria, escura.

A escapada é morosa, insegura,
tem laivos de tristeza a suspirar.
O corpo velho sente a alma a levitar
numa dança sem voz, serena e pura.

A escalada da dor exangue dura,
permanece, na vida, não se cura,
é deusa, enorme, como o mar.

É um estado de pesquisa, de procura.
Não há nela esperança de ventura,
mas no cume há o sol a espreitar.

Maria Helena Amaro
Outono, 2014.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Menina de Angola


(Fotografia de António Sequeira)

Na rua deserta
a chuva caía
a menina preta
passava e sorria...
Sorriso animado
a todos sorria
no rosto tinado
a dor não se via...
Menina bonita
de saia estampada
não sabe desdita
da terra deixada...
Há-de vir o dia
de alva primavera
dia de alegria
que Angola espera....
O regresso da chuva
e a vida se vai....
Mas a menina preta
sorri... ai... ai... ai...
na rua deserta
quando a chuva cai!

Maria Helena Amaro
Braga, novembro 2014.