Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Dor (III)


(Fotografia de António Sequeira)

Há na alma tormentos,
que ninguém sabe, ninguém ouve,
ninguém vê …
A alma entorpecida pergunta a Deus:
«- Porquê? Porquê? Porquê?»

Não há na vida
ninguém que a escute,
compreenda ou trate,
e a alma entorpecida,
grita na escuridão,
em que se envolve:

«- Meu Deus, meu Deus
por que me Abandonaste?»

Sem esperança,
suspensa de um gemido,
na Quaresma lilás,
apenas ouve o eco repetido!




Maria Helena Amaro
Inédito, março, 2010

domingo, 29 de abril de 2012

Tsunami



(Fotografia de António Sequeira)
Onde estavas Senhor
quando o mar galgou a terra
e com ele levou
o meu pai
a minha mãe
o meu irmão?

Onde estavas Senhor
quando soltei ao vento o meu clamor
e o mar arrastou
a minha casa
o meu pão
o meu amor?

Onde estavas Senhor?

Maria Helena Amaro
Inédito, 2004

sábado, 28 de abril de 2012

Qual é o teu caminho?

(Fotografia de António Sequeira)

Há uma vela acesa em cada encruzilhada
para que ninguém se perca no caminho
Tu apagaste as velas
e agora
estás sozinha...

Há uma porta aberta em cada vida
para que ninguém possa ser de fora
Mas tu fechaste a porta
e agora
estás sozinho...

Há sempre uma vidraça florida
para que outra primavera seja aceite
Mas tu quiseste a noite
e agora
estás sozinho.

E agora...
qual é o teu caminho?


Maria Helena Amaro
Inédito, setembro, 2005 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Recado (III)


Não tenhas medo
deixa-te envelhecer
Quando partires
para além da montanha
vais encontrar
uma luz que não morre
lá no lugar suposto
onde não há entardecer
nem noite
nem ocaso
nem sol posto.
Acredita
Não tenhas medo
Deixa-te envelhecer
Quando a hora chegar
e partires em viagem
para lá da montanha
tu irás encontrar
a tua própria imagem.

Maria Helena Amaro
Inédito, julho 1999

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vento (Esposende, 1960)



(Fotografia de António Sequeira)
O vento forte soprava
do fundo
ao cimo da rua
minha saia levantava
e ficava
a perna nua...

O vento forte soprava
fazia
a saia balão...
A minha face corava
e ficava
como brasas de carvão...

O vento forte soprava
avisava
a tempestade
na voz do vento escutava
um hino de liberdade...

O vento forte soprava...
aflita segurava
o balão da minha saia
o vento não se calava
e uivando avisava:
olhe, menina não caia...

Cresci  no meio do vento
no seio da minha rua
como o vento
também canto
e no ar toda me espanto
quando ponho a perna nua.

Ai vento da minha idade
Ai vento dos meus lamentos
Ai vento feito saudade
Ai vento desses bons tempos!


Maria Helena Amaro
Inédito, 2004 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sapatos vermelhos

(Fotografia de António Sequeira)

Quando te vejo passar
tão leve como um balão
os teus pés, a saltitar
são rosinhas em botão

Querias sapatos vermelhos
Pois, enfim, aí os tens...
A saia pelos joelhos
sais e entras, vais e vens

Quem espalha tanto encanto
na rua, em todo o lado,
alguém lhe fez um quebranto
ou procura namorado.

Levas vermelho nos pés
de cor enches a calçada...
Sobes... Desces... Lés a lés...
Estarás apaixonada?

Maria Helena Amaro
Inédito, agosto 2004

terça-feira, 24 de abril de 2012

Rosa Amarela

(Fotografia de António Sequeira)

Pus uma rosa amarela
na jarra do corredor
o vento abriu a janela
e travesso, tagarela
encheu a rosa de cor...

Encheu a rosa de cor
que não gostou da rajada...
ficou cheia de temor
e gemeu de tanto dor
por causa dessa nortada...

Por causa dessa nortada
mandei fechar a janela
e a minha rosa amarela
rosa bonita, tão bela
nunca mais foi abanada!

Maria Helena Amaro 
Inédito, 2004

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Introspeção (II)

(Fotografia de António Sequeira)
Ando á procura de mim!
De' outra que não seja eu.
Em que a rosa seja jasmim
e o branco seja breu.

Há tanta contradição
Tanta mentira/verdade
Que ventura é perdição
Tibieza santidade.

Maria Helena Amaro
Inédito, junho, 2006


domingo, 22 de abril de 2012

Despedida

(Fotografia de António Sequeira)

Para a Cândida Lima:

Dizer adeus nem sempre é despedida
Vestir de verde não é falar d'esperanças
Uma miragem pode ser uma quimera

Não há outono p'ra quem passou a Vida
a semear Amor entre as crianças
como se o mundo fosse primavera!

Aceita a Luz não feches a janela
Deixa que o Sol entre a jorros por ela
e inunda de Paz todo o seu ser...

Vem a Saudade? Não lhe feches a porta!
Chega o Passado? Não sejas folha morta!
Recorda sempre... Recordar é viver!


Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 1995

sábado, 21 de abril de 2012

Versos

(Fotografia de António Sequeira)


Andam papeis espalhados
na calçada lá da rua...
são versos despicados
que lancei à luz da lua...

Andam papeis espalhados
do cimo ao fundo da rua
são sonhos, sonhos rasgados
que lancei à luz da lua...

Ninguém os vai apanhar
Ninguém os quer conhecer
são papeis velhos rasgados,
alguém cansou de os ler...

Ai meus papeis retalhados!
Ai meus versos esquecidos!
Ai meus sonhos destroçados!
Ai fogo dos meus sentidos!

Maria Helena Amaro
Inédito, Maio, 2004 


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Tono


(Fotografia de António Sequeira)

(Tono:)

Para ti
quero o melhor
na saúde e no Amor...
Para ti
que tanto quero
vai o meu voto sincero:
...hoje e sempre
para sempre
e assim por toda a vida
sem tristeza ou despedida
vai o melhor desta vida
feita de Paz e carinho
vamos juntos no caminho.

(Parabéns!)

Maria Helena Amaro
Inédito, 16/11/2004

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Solidão II

(Fotografia de António Sequeira)

Escrava no pensar...
Escrava no dizer...
Escrava no sentir...

Sempre viveu escrava
Nas lágrimas
na revolta
no sorrir...


Maria Helena Amaro
Inédito, (sem data 2003 ?)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Regresso I

(Fotografia de António Sequeira)

Ai se eu pudesse voltar a ser quem era!
Ai se eu pudesse voltar a escolher!
Não acreditaria na Luz da primavera
Mas confiaria na Luz do Entardecer.

Ai se eu pudesse retroceder meus passos
Ai se eu pudesse fazer a minha escolha
Não estenderia à luz estes meus braços
Não escreveria a vida folha a folha

Ai se eu pudesse repreencher os dias
Ai se eu pudesse cantar minhas canções
Ai se eu pudesse amar uma outra vez

Não buscaria tonta na Luz as alegrias
A luz só cega, só riscas clarões...
A sombra é doce, é cheia de mercês!

Maria Helena Amaro 
Inédito, julho, 1998

terça-feira, 17 de abril de 2012

Registo

(Fotografia de António Sequeira)

Vais encher-te de lágrimas
e não vais dizer
nem sequer a palavra essencial
que imponha a tua dor...

Vais ficar muda como uma vestal
e não vais fazer nada
nem sequer o gesto necessário
que suspenda o ritual
onde morres de dor...

Maria Helena Amaro
Inédito, setembro de 2000

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Retrato

(Fotografia de António Sequeira)

Olho para ti
e não te reconheço
Não reconheço em ti
o homem que amei
Um de nós se perdeu
por caminhos diversos...
Qual de nós?
Não sei.
Ficaram só os versos.

Maria Helena Amaro
Inédito, julho 1998

domingo, 15 de abril de 2012

Passado

(Fotografia de António Sequeira)
De longe
vieram os risos
e as águas
De longe
vieram as flores
e as luas...
De longe
vieram as vozes
e os sons...
De longe
as lutas
e as pazes...
De longe
de muito longe
onde se perdeu este meu coração
vieram as coisas e os nomes
os suspiros
os ais
os perdidos
e os achados
e todos dizem: Não!

Maria Helena Amaro
Inédito, agosto, 1999.

sábado, 14 de abril de 2012

Pausa (IV)

(Fotografia de António Sequeira)

É apenas uma nuvem branca
no azul do céu
É nessa nuvem que eu vou morar
é nesse espaço que eu vou voar
é nesse rio de luz que eu vou ficar
É apenas uma nuvem branca
no azul do céu
Mas se vieres comigo
Não direi
É só
é só que eu quero estar
nesse pedaço branco
suspenso sobre o mar...



Maria Helena Amaro
Inédito, agosto, 1999

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Calvário


(Fotografia de António Sequeira)

Vi desenhadas as chagas de Jesus, 
no teu corpo doente macerado,
naquele quarto teu corpo reclinado,
já transportava com dor a Sua Cruz.

Ao pé de ti eu quis ser Cireneu,
Verónica, Maria, Madalena,
coração roto de amargor e pena,
vi a tua alma a dirigir-se ao Céu.

Ninguém julga, ninguém sabe, ninguém pensa,
o que é a agonia na doença,
o que é o sofrimento do adeus.


Ao recordar a Cruz do teu Calvário,
vejo-te agora envolto num sudário,
a murmurar canções aos pés de Deus.


Maria Helena Amaro
Inédito, 26/07/2010












quinta-feira, 12 de abril de 2012

Nas mãos de Deus

(Fotografia de António Sequeira)

Bateu-me a morte à porta
e eu abri…
Lá fui com ela,
doente,
em convulsões.
Lá fui com ela desamparada e só;
longo era o túnel
estreito
escuro
frio
e lá no fundo,
como o dia a nascer,
havia um sol
aurora boreal…
suspensa sobre um rio.
Ficava o corpo nu
e a alma estarrecida,
lutava em brasa,
entre a morte e a vida,
enfeitiçada por essa luz
que me chamava
e ria.
Surgiam rostos
de formas destorcidas,
frio e calor,
canções, suspiros, palavras, orações,
até gemidos…
Deixei para trás o corpo…
e lá fui baloiçada
em direcção à luz…

Mas,
atrás de mim,
havia braços
grandes laços
que prendiam
e atavam ao chão a minha alma.
Sentia o gelo
o peso
e a lisura
da pedra tumular.
Era um corpo sem forma
e sem textura
a boiar… a boiar…
Ao atingir a meta,
na luz do túnel longo,
alguém gritou por mim,
mas, não falei.
Tanta gente, tanto choro
à minha porta
E eu dizia à alma
«não estou morta»,
por favor, não me enterrem
que estou viva,
só quero apenas
encontrar o corpo que perdi…

Se era a Luz de Deus
que me chamava,
então, eu não quis ir…
Só me cansava.
Houve um dia
em que a luz do Túnel
se apagou.
Abri os olhos: “- quem sou eu?
quem sou?”
Não via nada.
O corpo não mexia.
Mas, a minha alma ciciava:
«estás viva!».
E, juntas de novo,
iniciámos a jornada
ao encontro da vida.

Hoje,
se me perguntam,
se sei o que é a morte,
eu digo que a morte não existe;
a morte é a Luz daquele túnel
cheio de brilho e vida…
É colocar
a nossa alma cansada e dolorida,
sem medo e sem adeus,
nas mãos de Deus.

Inédito – Maria Helena Amaro
Braga – novembro, 2009

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Aldinha

(Fotografia de António Sequeira)
Aldinha
Tu não morreste!
Tu estás
Espantosamente viva e recordada
envolta num manto de bondade
que teceste primorosamente
ao longo de uma vida…

Tu não partiste.
Tu estás aqui ao nosso lado,
numa lembrança sempre renovada,
rosto de luz,
sem futuro ou passado,
presença demarcada.

Diante de Deus,
a quem oramos,
ouves decerto os amigos a cantar
as Bem-aventuranças…
Pois no mundo das crianças,
no meio do privilégio e da vaidade,
foste simples como uma flor…
E como flor sem pretensões
viveste a singela mensagem
feita de Amor e Fé

Usaste a justiça com ternura
e deste o perdão com amizade…
Foste pura nas tuas decisões
usando a arma da verdadeira Paz…
Aceitaste dos outros a diferença
sem julgar ou mentir
sem mudar a verdade…
E quem te procurou,
sempre encontrou
a Aldinha a sorrir…

Aldinha
Um dos teus alunos
relembrando as conversas de alunos
aos quais te dedicaste
com ternura e agrado,
nesse teu modo tão especial,
manda-te este recado:

Pelo teu olhar
Pelo teu sorriso
Pela tua paciência,
obrigado Professora,
obrigado!

E nós,
colegas de trabalho,
enviamos ao céu
esta nossa oração:

Deus console aqueles que te amaram
na sua imensa Dor…

E tu
repousa para sempre,
como criança feliz abençoada,
nos braços do Senhor!


Maria Helena Amaro
Inédito, sem data (1990?)


terça-feira, 10 de abril de 2012

Carta a minha mãe

(Fotografia de António Sequeira) 
Minha Mãe,
vem embalar-me
com flores azuis e borboletas brancas.
Vem dizer-me que me olhas,
que me escutas,
que sabes destas dores
e desta vida.

Minha Mãe,
houve um dia em que tive medo
e quis ocultar-te
o sofrimento,
porque o sofrimento
era de espanto
de surpresa
e desespero…

Tão pesado que foi…
Tão dorido que é…
Tão medonho será…

Minha Mãe,
vem embalar-me com flores azuis
e borboletas brancas.
Urgentemente,
necessário e preciso,
é ter-te ao pé de mim
e reclinar no teu regaço
esta cabeça tonta,
estes olhos de água congelada,
este sorriso morto,
esta face torcida,
este gesto negado.

Minha Mãe,
não te pergunto pelo que tens e sabes,
apenas peço:
- Vem embalar-me com flores azuis e borboletas brancas.
Está só a tua filha,
e é urgente,
necessário e preciso,
reclinar no teu regaço
esta cabeça tonta
de coração partido,
e sem juízo.

Inédito – Maria Helena Amaro
Braga, maio de 2010

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Reflexão (III)

(Fotografia de António Sequeira)

Troquei-te por um Sonho
apenas uma vez
eu sei...

Troquei-te por um sonho
numa substituição
de uma  joia perdida
que eu não encontrei...

Troquei-te por um Sonho
apenas uma vez
eu sei...

Convencida
que no meio da jornada
a luz pode ser sombra
e a sombra será luz...

Ai de mim
que tanto ecureceu
na minha vida...

Agora
é só a sombra
que eu encontrei
aqui.
Foi-se a luz
mas não fui eu que a apaguei
troquei-te por um Sonho
apenas uma vez
eu sei...

Maria Helena Amaro 
Inédito, julho, 1998

domingo, 8 de abril de 2012

Duende

(Fotografia de António Sequeira)

Sou como o duende
perdido na floresta
à procura da fada prometida...
Sou como o duende
não tenho voz
nem forma
nem vida.

Sou como o duende
à procura da fada prometida
Tantos anos à procura
em ânsia dolorida...

Sou como o duende
perdido na floresta das pessoas
entre objetos e vozes repartida
sou como o duende...
Se alguém me encontrar
eu quero, eu faço
um amor sem preço
e sem medida.


Maria Helena Amaro
Inédito, julho 2003

sábado, 7 de abril de 2012

Perdidamente

(Fotografia de António Sequeira)
Rumo
risco
aventura
furor...

Foi isso que encontrei

Mentira
hipocrisia
egoismo
desamor

Foi isso que encontrei

Agora
lá vou
não sei se vou
se estou
se irei...

Perdidamente
foi isso que encontrei!


Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 1998

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Recado (II)

(Fotografia de António Sequeira)


Dá-me a tua mão
anda daí
e vamos percorrer
os caminhos distantes
que já fizemos juntos.
Sós
com a recordação doce
de outros tempos
em que foram nossas
as gargalhadas
os risos
os gemidos
os lamentos.


Maria Helena Amaro
Inédito, agosto, 1999.




quinta-feira, 5 de abril de 2012

Lenda (II)

(Fotografia de António Sequeira)
Conta a lenda que num País
de uma terra que e u não sei
toda a gente era feliz
mas, infeliz, era o Rei.

Encontrou uma Princesa
e viveu à sua beira
mas nem a sua beleza
o punha de outra maneira

Então o Mago da Corte
disse ao Rei: - Sua Alteza
faça uma fogueira forte
e mantenha-a sempre acesa.


Maria Helena Amaro
Inédito, julho, 1998