Periodicidade de publicação de poemas

Caros leitores:
Espero que desfrutem na visita a este espaço literário. Este sítio virtual chama-se “Maria Mãe” e tem como página principal os poemas de Maria Helena Amaro.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Velho



Ano Velho? Não, não quero mais…
Sou como o rapazio de Esposende,
que gritava em berros de duende,
da Senhora da Saúde, até ao cais:

«Ora bota o ano velho fora…
Que venha o Ano Novo cá p’ra dentro!»
Corriam todos… e paravam no centro,
A pedir um tostãozinho, sem demora.

Também sou rapazio de Esposende,
ao Ano Velho toda a dor me prende.
Ao Ano Novo nada vou pedir?!


Peço um tostão de Fé e de Alegria,
o ansiado pão de cada dia
e a bênção de Deus no meu porvir.


Maria Helena Amaro
Braga, dezembro de 2011

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Canção da Tarde

À Celeste Germano


Voltei costas ao Sonho
E fui de olhos marejados
Ao encontro da Dor...
Agora
Sabe-me a vida à Primavera em flor
E os meus braços mortos
Tornam-se asas...
Pergunto ao Céu
Onde lance meus voos de Infinito
Pelo caminho que pedi às estrelas...
E os meus braços
Braços partidos de destroçarem grades
Curvam-se todos
Como hastezinhas de lilases murchas...
Curvam-se todos esses braços quebrados,
E neles o meu rosto
É anjo penitente
A poemar os repousos negados
A esquecer estradas percorridas
A desvendar os gestos de renúncias
Que ainda não foram esboçados!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Menina Triste 1


Menina triste...
Menina triste porta-se sempre bem...
Não traz sonhos parados
Nos seus olhos perdidos
Não traz risos de cor
Nos seus lábios caídos...
Menina triste
Habituou-se a ver
Bonecas desenhadas
Nas pedras do caminho...
Subiu depressa as escadas da Vida
E ficou assim
De asas partidas suspensas das estrelas
A contar
A contar, a sós, serenamente
Os dias que lhe faltam
Para alcançar um dia sem Poente!
Menina triste
Menina triste porta-se sempre bem!
As cidadelas erguidas sobre a neve...
- Porque foram sonhadas?
Ai, a Menina que traz olhos sem Luz
Não ri às gargalhadas
E não sonha...
E não vive...
- Quem a vai despertar?
Menina triste...
Menina triste porta-se sempre bem!
E o seu poema
Não é feito de Dor ou de grandeza,
O seu poema
Parado como um lago sem espelho
Suspenso como um riso sem Beleza
O seu poema
É feito de tristeza.

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973.
  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Doce Menina


Doce menina dos olhos transparentes
Singelos, virginais
Como rendas de berço...
De lábios puros a murmurar canções,
De mãos unidas
Cruzadas sobre o peito
Em gestos de orações...
Doce menina de olhos transparentes,
Quando passa na rua
De boneca nos braços,
De trancitas morenas
De pezitos descalços,
A Primavera dança na calçada
E Deus,
Vendo-a passar,
Há-de sorrir nos Céus...
.............................................................
Doce menina dos olhos transparentes
De farrapos vestida,
Muitos caminhos terás de percorrer
Ao encontro da Vida!
.............................................................
Se a menina morrer,
A menina dos olhos transparentes,
Como rendas do berço
Hei de oferecer-lhe um ramito de rosas
Crescidas no jardim
Perto do Paraíso
Das almas encantadas...
Há de levar com ela
Um cortejo de fadas de cristal
Com estrelinhas de oiro
(Estrelas que os homens fizeram)
Nos cabelos pendentes...
Doce menina dos olhos transparentes!

In, «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Canção Inútil



Lá vou de alma descalça
Por essas ruas sós
A contar horas mortas...
Sou o mendigo do violino branco
De arco torcido
De cordas quebradas...
Compus uma canção
Feita de céus e lagos transparentes...
- Quem vai ouvir esta canção de noite?

Lá vou de alma descalça
Por ruas sem esquinas
Por praças sem pregões...
Canto cantigas de fazer sonhar...
Sou o mendigo do violino branco
De arco torcido
De cordas quebradas...

Trancam-se portas; fecham-se janelas...
E a minha canção
Feita de céus e lagos transparentes
Transformou-se na noite
Numa canção inútil !...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Fuga


Não invoques os fantasmas brancos
Das fadas do caminho
Que ao alvorecer
Tombaram mortas
Sedentas de carinho

Mais longe... mais alto...
Mais além do além onde não haja aléns...
Nem céus limitados
Nem estradas cinzentas...
Nem caminhos cortados...
Nem noite sem estrelas...

Mais longe... mais alto...
E deixa-te morrer devagarinho...
E canta
E sonha
E reza
E dá amor a quem pedir Presença
E dá ternura a quem mendigue Dor
E dá Sonho a quem tenha Amargura...

Não invoques os fantasmas brancos
Dos sonhos que se foram
E nunca mais virão...
- Não conheces
Aquela história triste
Dum triste coração?

- Mais longe... mais alto...
Até matares em ti essa sede de Dar...
E canta
E sonha
E reza

Mesmo que lá dentro
Onde nunca chegaram
As vozes deste mundo
Tu sintas
Baixinho
A alma a soluçar...


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973  

domingo, 25 de dezembro de 2011

Mensagem de Natal


Menino Jesus de Nazaré
nascido em Belém
na Galileia
venho visitar-te
no Presépio
erguido no salão
do lar senhorial…

Vestiram-te de renda e de brocado
e deitaram-te
num berço rócócó.

Vestiram Tua Mãe
de sedas e cetim…

Ela sorri para Ti,
feliz, embevecida,
e S. José de jaqueta e burel,
olha o quadro
com ar preocupado.

Os pastores são pajens enfeitados
e as ovelhas brancas de luar
são todas prateadas.
Os anjos? Onde estão os anjos?
Ah, os anjos estão suspensos
lá, no alto
do tecto milenário…

Os Reis Magos ainda não chegaram
e vão trazer riquezas
- eu suponho -
podem ser assaltados.
Quisera Meu Jesus
trazer-te como eles
ouro, incenso e mirra.
Atrevo-me a dizer-te
que tudo o que trazia 
para Ti
fui perdendo ao longo da viagem.
Aos pobres dei o ouro,
aos doentes e velhos dei incenso
e só a mirra eu pude ofertar
aos filhos órfãos da miséria
e da guerra.
Nada sobrou para as mulheres viúvas
e para a mães sem filhos
Nada ficou para Ti.

Nada ficou para mim,
para mim que cheguei tão cansada,
ao Presépio erguido no salão
do lar senhorial.
Não importa.
Tu Dás-me tudo,
eu quero aquilo que me Dás
em coragem, fé e sentimento,
em partilha, aceitação e amor.

Menino de Jesus de Nazaré
nascido em Belém da Galileia,
deixa-me ficar ao pé de ti
de mãos vazias
mas de alma tão cheia
a murmurar poemas sem igual
- Feliz Natal! Feliz Natal!


                                                                                              Inédito
Maria Helena Amaro, Dezembro 2009.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal 2011





Pus à janela um anjo pequenino,
a anunciar que Jesus já nasceu,
e na varanda, voltado para o Céu,
pus um retrato de Jesus Menino.

Os que passarem, talvez, possam sorrir
ao recordar outros natais antigos,
avós, parentes, os pais, outros amigos,
Missa do Galo, na noite, a ressurgir…

Olho a janela, vejo o anjo dourado,
a segurar uma vela apagada,
asa suspensa, estrelas no vestido…


O mais belo Natal do meu passado,
aconteceu de forma inesperada,
O anjo sabe… Não será esquecido!

Inédito, Maria Helena Amaro
Braga, dezembro, 2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Pausa ( II )


Dai-me um raio de Sol
Uma nesga de Céu
E um sorriso de menino virgem
P'ra desfazer a névoa
Desta manhã sem cor...

Dai-me um brinquedo de criança só
E um punhado branco
de onda sem maré...

Dai-me a cantiga rubra
Duma cigana louca
E o primeiro cravo que florir
Divinal e donzel
Na mão de uma criança...

...............................................

P'ra desafazer a névoa
Desta manhã sem cor
Dai-me um pouco de Esperança!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Bonecas de trapos


Minha boneca de trapos
Feita de muitos trapinhos...
Minha boneca de trapos
De pernitas de madeira
De olhos pintados de Azul
De cabelos de cordel
De vestidinhos de chita
Com lacinhos cor de rosa
Minha boneca de trapos
Com saiotes de papel...

Eras feia, muito feia
Pobrezita e andrajosa
Mas o brinquedo mais belo
Da minha infância ditosa!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O sono das Estrelas


Eu tenho um Sonho!
Um Sonho grande, imenso,
Que um dia fui buscar
Às estrelas do Céu...

Eu tenho um Sonho!
O meu Sonho é quimera,
É dor, é Sofrimento
Que roubei à miséria...

Eu tenho um Sonho!
Um Sonho belo, infindo,
Feito de nuvens brancas
Dos meus brancos anseios...

Meu Deus! Será um Sonho?
Eu tenho um Sonho grande
Que tirei às estrelas...

E rezo e sofro e creio
Pois julgo que o meu Sonho
Não será deste Mundo! ...


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pausa


Hão de quebrar-se as asas do meu sonho
E ver-te-ei passar
D'olhos suspensos em estrelas maiores
Esquecendo-me toda
Que és a própria vida
Onde quero morrer...
A própria Dor há de chamar-se Luz
E dentro de mim
Dentro de mim onde moras senhor
Dos meus sonhos mais puros,
O ruído singelo dos teus passos
Será o eco próximo
Dum sino de cristal estilhaçado!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Aguarela


Alguém pisara aquelas folhas secas
Na margem, junto ao rio...
À tarde, a ventania
Os pedaços levou em rodopio...

Aquelas folhas secas
Aquelas folhas tiveram Primavera...
Folhas perdidas
Folhas tingidas
Pequenos nadas dessa Grande Quimera...

Aquelas folhas secas
Aquelas folhas anunciaram o Verão...
Folhas pequenas
Folhas morenas,
Amarelas, caídas pelo chão...

Aquelas folhas secas
Que o vento levou em rodopio...
Da copa dum choupo se miraram,
Vaidosas, lá no rio...
......................................................

Eram umas folhas secas
Caídas pelo chão
Numa tarde esquecida...

Folhas de Outono!
Folhas da Vida!

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

domingo, 18 de dezembro de 2011

Mãe



Quando chorava
tinha pérolas caídas
no rosto...
Quando sorria
eram nuvens
que o sol rompia...
Quando cantava
eram águas
que corriam chorando...
Quando bailava
eram as folhas das árvores
caindo...
Quando falava
eram os sinos
que diziam matinas...
Quando me lembro dela
agora que partiu
vejo apenas uma sombra que foi
e não vai regressar...

Maria Helena Amaro
Inédito, maio, 1990

sábado, 17 de dezembro de 2011

Visão

Ai, não venhas saber porque chorei
E escondi o rosto
Nestas mãos cansadas de afagar
Primaveras sem nome…
Passa adiante, Amor!
Ai, não queiras saber…
São como velas de moinho de vento
Estes meus sonhos de menina-cigana…
Pintei de Azul a Colina da Vida
E povoei de pássaros o Céu…
Amei o Sol
E fui devota de Auroras ridentes…
Ai, não venhas saber porque chorei…,
Eu tinha fome de olhos transparentes!...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Mendiga


Não apagues a luz dentro de ti.
A noite é fria e o caminho é longo...
Como é pesada e pobre
Essa bagagem negra
Dos sonhos mortos que nunca foram teus...

Peregrina solitária
Já não és mais a menina doirada
De trança negra e olhos cor do Céu

Caminhas só
A maldizer a sorte dos poetas
Tu que tiveste o Sol por companhia
E chamaste irmãs às violetas!

Maria Helena Amaro

In, «Maria Mãe», 1973

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Menina Triste


Menina Triste
Menina triste já não se porta bem...
Pediu um Sonho ao Céu
E o Sonho ruiu todo em bocados...
Agora
No caminho sem nome que percorre
Não tem senão as estrelas
Não tem senão estrelas apagadas
E o ruído de cristais estilhaçados...

Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Pássaro


Pássaro vivo
De asas quebradas
Não venhas poisar no meu caminho
Somos iguais
As minhas asas nasceram mutiladas
E desde sempre
A vida é agonia
Suspensa em desespero
Entre a Terra e o Céu
Num voo rasteirinho!


Maria Helena Amaro
In, «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

João Paulo II




Calçaste as sandálias de pescador
e foste pelo mundo
de braços estendidos
tão vestido de branco
a espalhar a Paz e a Amizade.

Imitaste Cristo
no gesto, na frase, na bondade
e por mais que o mundo de ti fale
nunca irá saber a obra que fizeste
em espírito de Deus e de Verdade.

Deixaste o teu sorriso de peregrino
e o acenar de terna despedida.
Testemunho de Fé, testemunho de Vida
espalhaste na Terra o som de um sino
E o raiar de uma Igreja renovada.

«Fica connosco só mais um instante!
Pedimos nós de alma amargurada.
Tu és a nossa estrada!

Inédito – Braga, abril 2005
Maria Helena Amaro


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Doença



É uma mágoa que se chama dor,
marasmo, letargia, desalento,
asa da noite, raiva, desalento,
desespero, abandono, dasamor.


Levas a cruz na rua tão estreita.
São teus olhos lagos congelados.
São teus braços ramos decepados
de certa olaia que foi bela e perfeita.



Nesta viagem de dor, eu vou contigo,
no que sofro, no que penso, no que digo,
no muito mais que fica por dizer…


Pensar que vais embora, não consigo.
Que dor! Que desespero! Que castigo!
Que modo tão cruel de te perder!



Maria Helena Amaro
Inédito – janeiro de 2009.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Carta a uma mãe (Advento)



Faz um manto de seda bem macio
Para cobrir o teu menino de oiro…
E um berço de penas de cetim
Para o guardares do mundo
Quando ele chegar…
Ó jovem Mãe que sonhas
E ensaias a medo
A Canção de embalar!

Faz tudo bem macio…
De duro
Bastam as horas que a Vida lhe há de dar!

Quando ele crescer…
E chilrear nos teus braços estreitos,
Ó jovem Mãe que sonhas
E ensaias a medo
A canção de embalar…
Quando ele crescer…
Ensina-o a rezar!

Há de ser belo o teu menino de oiro
- Ai os sonhos que tens p’ra lhe contar –
E Santo… e Sábio… e Herói… e Poeta!
Sei lá o que há de ser
O teu doce menino!
Amor do teu amor…
Alma da tua alma…
Irá perder-se nas ruas do Destino?

O teu menino de oiro…
Quando ele chegar
E tu chamares Ventura à tua Dor…
Quando ele crescer
E cobiçar estrelas…
Quando ele perguntar
Porque fizeste esse manto de seda
E o berço de penas de cetim…
O teu menino de oiro
Quando ele crescer,
Ensina-o a rezar!

Maria Helena Amaro
In:  “Maria Mãe” (modificado) maio - 2009

sábado, 10 de dezembro de 2011

Se



Se vieres
Vem de mansinho
Não te magoes nas pedras do caminho!

Se vieres
Vem docemente
A rua não tem fim; o Sol parece ardente!

Se vieres
Tens de ficar
Tens de ficar comigo eternamente…

Se vieres
- Sei que nunca virás!
- O sonho dói; O sonho vai-se; o Sonho mente!


Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Porta fechada



Eu quero
Fechada a porta
Não venha bater alguém
Noite fora
Noite morta…

A cortina do postigo
Adejou o dia inteiro
E os cravos
Encarnados
Da minha jarra amarela
Caíram negros
Mirrados
Na sombra do corredor
Eu quero fechada a porta
Bem fechada, por favor!

Se vierem perguntar
Fui-me embora
Não voltei.
Onde fui?
Sei lá! Não sei…

Eu quero fechada a porta
Noite fora
Noite morta…

- O medo de Noite, é rei!
A dor de Dia, é rainha!

- Eu quero
Fechada a porta
P´ra poder chorar sozinha!

Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Maria Mãe


Deus pôs o nome Maria,
Lindo nome, à minha Mãe…
Mas, como a vida é agonia,
solidão e saudade,
acrescentou-lhe também,
o doce nome Piedade.

Há na Serra da Lousã,
a Senhora da Piedade,
ermida devota e sã,
sítio de tanta beleza,
de doce serenidade,
onde a alma perde a tristeza
e procura a santidade.

Minha Mãe que está no Céu,
pertinho da serra-mãe,
envolta em tanta saudade,
está no Céu, creio eu,
pois é Maria também
e também é da Piedade.

Inédito – Braga, maio 2010.
Maria Helena Amaro


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Esperança


Veio a Esperança na luz da madrugada
E ficou comigo todo o dia…

Meu Deus
Estou aqui
De mãos cruzadas diante do caminho
A mendigar ao Sol
Um pouco de alegria…

Veio a Esperança na luz da madrugada
E prometeu ficar…

Ai, se não fosse a Esperança
Nem valia a pena olhar o Céu
Nem ouvir o cântico dolente
Do vento que passou
Sem me levar…

 

Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Entardecer (Deixai-me adormecer...)





Deixai-me adormecer
No silêncio da noite sem estrelas…
Na sinfonia dolorosa da chuva…
Como adormece
O menino enjeitado
Nas silvas do caminho…

Deixai-me adormecer
E esquecer
A certeza de atalhos sem saída…
E sonhos…
E angústias…
E risos destroçados…
E amanhãs sem fé…

Deixai-me adormecer…
Deixai-me adormecer
Até que o Sol se decida a nascer!



Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Chuva


Cai a chuva…
Cai a chuva…
Cai a chuva docemente…
Alaga a terra molhada
E a Terra é mulher cansada
Que a recebe a sorrir…
Como quem chora e não sente
A dor que a vem cobrir…

Meu Deus
Meu Deus
Como é bom
Ver esta chuva cair!


Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

domingo, 4 de dezembro de 2011

Maré cheia


Remos partidos
Velas desfeitas
Maré cheia infestada de espuma…
Lá vou na tempestade
E não tenho rota que me leve
A porto novo onde possa ancorar…

Dá-me a tua mão
Leva-me tu com olhos de luar
A porto novo
Onde haja Sol e luz até cegar…

Remos partidos
Velas desfeitas
Não há farol no oceano negro…
Sinto-me partir…
Quero ficar!
Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

sábado, 3 de dezembro de 2011

Amanhã



Há de vir o dia
Povoado de sonhos inéditos
Em que poderei cantar
O meu cântico de amor e alegria…

Nem asas partidas
Nem risos ingentes…
Nem olhos apagados implorando sol…


Há de vir o dia…
- Ai, a Ventura não será mito…
- Em que eu possuirei o Infinito!

Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», agosto 1973

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Verão de Saudade



Mergulhavas nas ondas alterosas
e eu ficava na praia a espiar…
Angustiada, não fosses naufragar,
na flor das vagas espumosas.

Então, começavas a chamar:
«Vem até mim, vem, vem até mim!»
E, eu lá ia pensando ser meu fim,
de tanto medo que eu tinha do mar!

Eram momentos frios, dolorosos,
com o bater do mar no meu regaço,
e a tentar chegar à tua beira…

Vinham então teus braços vigorosos,
prender-me toda num carinhoso abraço
para que a onda me cobrisse inteira!


Esposende, agosto 2010
Inédito – Maria Helena Amaro

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

1º de dezembro


«Portugueses celebremos
o Dia da Redenção…»
Eu cantei
tu cantaste
nós cantámos
tantas vozes na noite
se encontraram
que as tábuas do Teatro Circo
tremeram
abanaram…


Nas frisas
camarotes
plateia e geral
Braga inteira sorria
aplaudia
de seda e brocado se vestia
para ir ver
os meninos e meninas
do Liceu Nacional
no grande recital…

Pela primeira vez
e só naquele dia
e só naquela festa
eu vestia
o meu vestido de organza branca
tão leve e tão comprido
para no Orfeão afinadinho
cantar toda a canção
em voz serena e lesta.


Era a canção
o bailado
a opereta
o fado
o auto
e a revista…


O gosto era diverso
pois diversa, então, era essa lista.

No fim da festa
lá pela madrugada
depois da Ceia
que se queria alegre
e bem regada
saíam os rapazes para a noite
a fazer as serenatas
e muitas zaragatas…
na rua
à luz da lua…

As meninas do Lar
espreitavam nas janelas
às escuras
e ouviam as mais belas canções
amores… simpatias… e ternuras.

E em segredo
a alma toda em medo
tentavam descobrir
na deusa escuridão
lá na janela
quem sabia cantar
tanta serenata bela…

Quando rompia o Sol
e despontava o dia
era a cidade
que acordava
e espantada via
a sorrir a falar
os jardins e as ruas
de pernas para o ar….

Mas ninguém ralhava
tudo se divertia
porque a cidade
era a namorada
a todo o instante
feliz enamorada
embrulhada
na capa de estudante…

Ai cidade do 1º Dezembro
dos caloiros
dos bichos
dos ceboleiros
batateiros
e nabeiros
a fugir todos os anos
dos nobres veteranos.

Ai tempo do liceu
tão recordado
tão distante
perdido nos anais
desta velha cidade…

Mas, se bem me lembro
envelheci com ela
e regresso com ela
na saudade
todos os anos
ao Dia do 1º de Dezembro.


Inédito – Maria Helena Amaro
Braga – 1 de Dezembro de 2009

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Recado



Quando a noite me vier buscar
e tingir de negro a madrugada,
eu irei num raio de luar,
alma cheia de tudo e quase nada.

Irei a Deus, sem dor, sem despedida,
buscando no espaço algum lugar,
onde encontre essa paz prometida,
que neste mundo ninguém me pôde dar.


Andei caminhos. Estradas palmilhei.
Fiz opções; atalhos escolhi,
em muitos me perdi, noutros me achei.

Procurei Deus e sempre O encontrei.
Mas onde estão as estrelas que colhi?
A vida as apagou? Ou eu as apaguei?

Maria Helena Amaro
Inéditos – fevereiro 2007

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Esposende





Nasci na terra do vento,
minha mãe era a nortada,
o meu pai um catavento,
meus irmãos, a passarada…

Foi meu lar o vendaval,
feito de noite e saudade,
o meu berço o temporal,
minha sina a liberdade…

Minha riqueza a traineira,
navegando sobre o mar,
sobre a onda traiçoeira,
com medo de naufragar.

Dormi na areia da praia,
a escutar a sereia.
Pus a secar a minha saia
no estendal da Ribeira.

Cresci perdida no tempo,
entre o sol e o luar.
Eu nunca quis casamento,
mas sempre soube noivar.

Nas asas de uma gaivota,
andei suspensa no ar.
A vender peixe na lota
aprendi a apregoar…

A falar tudo me entende,
a contar não tenho idade…
O meu nome é Esposende
da Saúde e Soledade.

Maria Helena Amaro
Inédito, agosto, 2009


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

História de Amor





Numa manhã de certa primavera,
vieste a correr ao meu encontro,
braços abertos e sorriso pronto,
a oferecer amor, sonho, quimera.

Contigo fui de mão dada pela vida,
atravessando bons e maus momentos
alegrias, desgostos, sofrimentos,
rosto feliz e alma enternecida.

Vinhas enamorado ter comigo,
a tua alma era o meu abrigo,
e o teu corpo o meu ancoradoiro.


Braga 16/11/2009
Inédito – Maria Helena Amaro




Mas a vida tornou-se em furacão,
a doença levou-te pela mão
e fez em pó aquilo que era oiro.

domingo, 27 de novembro de 2011

Portas fechadas




O corpo nada vale
tudo sente.
Mas, é a alma
desperta e consciente
que regista
o bom e o mau
que a vida tem…
A Tua alma
está cheia de quebrantos,
saudades,
cruzes,
desencantos,
altares vazios
e velas apagadas;
e lá no fundo
já não cabe mais nada.
Não cabe mais ninguém…
Tens as portas fechadas.

  Inédito, Maria Helena Amaro
7/11/2010


sábado, 26 de novembro de 2011

Mensagem de Amor


Quando te encontrei
fiquei
tonta de esperança,
mas, não te disse,
que desejava tanto,
levar-te nas asas do vento,
para conhecer melhor,
o sonho que existia já,
nos teus olhos tão cheios de luz.

Quando te encontrei
fiquei tonta de esperança,
e, à beira do mar,
no ouro azul,
na canção das ondas,
na leveza da espuma,
descobri nos teus olhos
a nostalgia serena das distâncias…

Disseste que desejavas levar-me,
numa vela branca,
para fazer contigo
a viagem da vida…

Acreditei.
Das tuas palavras fiz um hino
e assim se cumpriu
o meu destino.

20/07/2010
Inédito, Maria Helena Amaro

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Reflexões


Só sei
só sei que nada sou
que nada tenho…
Os sonhos que vivi
também desdenho.
Na lembrança que vai
na lembrança que vem
as coisas que perdi
são de ninguém…
Ninguém as quer
ninguém as tem…

Da vida nada sei,
nas ruas que escolhi
não sei
quando ou onde
me perdi.
Por onde caminhei
apenas sei
que tudo partilhei
e quando me encontrei
estava solitária
separada de ti.

Das loas que cantei
poemas que escrevi
não sei, não sei,
se os guardei
perdidamente em mim

ou os perdi…
Por onde caminhei
apenas sei
que tudo partilhei
e quando me encontrei
estava solitária
separada de ti.

Inédito, Maria Helena Amaro

 Março, 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Lembras-te amigo... (Recordando Fernando Mota Soares)

«Lembras-te meu Amigo? Os teus 18 anos, 
os meus sapatos rasos, as saias rendilhadas,
os teus olhos gaiatos a tecer desenganos,
as minhas tranças quase despenteadas?

Os teus livros de estudo de cantos retorcidos,
enrolados nas mãos, com certo nervosismo?
Os versos comentados já lidos e relidos,
que tu declamavas cheio de romantismo?

Cantavas os teus sonhos, as tuas paixonetas,
quimeras de rapaz que ninguém conhecia.
Voavam tão juntinho nossas almas poetas
e a vida ia tão longe em coisas de magia…


As minhas companheiras na varanda a gritar,
a rir, a bater palmas, em grande rebuliço;
- Ó menina, então? Ou não querem jantar?
Conversem amanhã…Acabem lá com isso!


Separou-nos a vida. O tempo foi veloz.
Passaram trinta anos! Ou foi há pouco tempo,
que dissemos adeus, que nos tremeu a voz,
que o mundo transformou o nosso encantamento?


Foi ao dar-te um abraço, trinta anos passados,
ao ver os nossos filhos tão jovens como nós,
que lembrei a Avenida, canteiros enfeitados,
que ouvi dentro de mim a cantar uma voz!


Olhando ao espelho meu rosto desbotado,
os meus cabelos curtos, que a vida fez em neve
deixei fugir a alma aos dias do passado…
Revi essa Amizade tão donairosa e leve.»


Maria Helena Amaro, 1987
(Reunião de Curso 1955-57 realizada em Braga, em junho de 1987)


Nota da autora: Perdemos um Amigo. Ganhamos uma saudade.
            «Os que amamos não morrem, antes partem antes de nós». Esta frase permanece viva no nosso quotidiano com a separação dos nossos pais, familiares, amigos. Coube desta vez ao Curso da Escola do Magistério de Braga, 1955-1957, perder um companheiro, um colega, um amigo. Todos nos lembramos dele: jovem, hábil no discurso, inteligente, disponível, poeta e prosador.
            Sempre que a Reunião do Curso se realizava, lá estava o Fernando Soares, pendurado nas recordações, a relembrar com uma lagrimazinha aflorada nos olhos e, com um poema nas mãos, a saudar todos com a sua habitual mensagem, como se fossemos «o Curso dos cento e vinte irmãos». E éramos. E somos, ainda que alguns já tenham partido e outros a vida os tenha separado de nós.          
            Tu partiste, Amigo, mas não morreste, porque sempre que nos encontremos na nossa Reunião de Curso, vamos falar de ti, vamos recordar-te como se estivesses junto de nós.
            Que Deus ouça no Céu os teus discursos e os teus poemas.
Maria Helena Amaro
Curso 1955-1957)
Braga, 22/11/2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Esperança


Não guardes o tormento
em flocos de algodão,
nem apagues os espinhos
escondidos na alma…

Não leves a passear o teu pequeno mal
nem cantes aos outros a dor que não dominas.

Há feridas que não chegam a sarar
e cicatrizes que se tornaram chagas…

A tua dor
é uma rosa que ri na madrugada
porque vai desabrochar
cetinosa e ridente
ao sol do teu meio dia…

Tem esperança
quando a noite surgir
alguma estrela brilhará de novo.
Aleluia!

Maio, 2010
Inédito, Maria Helena Amaro

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pescador de Esposende


O farol foi a luz da tua vida…
O choro do mar o teu lamento…
Embarcadiço nas asas do vento,
no por do sol, fizeste despedida.


Cresceu-te a barba; branqueou-se o cabelo.
Já não és mais o jovem pescador,
a agoirar os que têm vigor,
apenas és o Velho do Restelo.


Se eu pudesse, meu saudoso Amigo,
cantar em verso a tua vida austera,
num trabalho que custa, gasta, prende…

Tantas coisas que penso e que não digo,
tantos naufrágios de uma outra era,
num livro só, eu poria – Esposende.


Maria Helena Amaro
Inédito – 1 de maio 2009

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Trevim


Perguntei à montanha
que fizeram dos meus,
desses antepassados
que nunca conheci.
E a montanha se abriu
e apontando os Céus,
serena respondeu:
- serenos e felizes
já repousam ali…

Perguntei à montanha
que caminhos percorro,
entre o sol e o vento,
que se estendem velozes.
E a montanha calou,
vestida de cinzento,
cintilante de luz,
na noite se estendeu
em gemidos atrozes.

Perguntei à montanha,
na luz do amanhecer,
pelos rios que cantam
entre fragas partidas.
E a montanha sorriu,
estendeu os seus braços,
chamou os castanheiros,
dançou nos olivais
e não fez despedidas.

Por isso é que eu a miro,
aqui do meu terraço,
aqui lhe canto loas
e mando o meu abraço.
Que a montanha foi
o riso dos meus pais,
que a viram de neve,
tão perdida de amores,
em voo lento e leve,
a chamar os açores.

Maria Helena Amaro
Inéditos
Lousã, outubro - 2007

domingo, 20 de novembro de 2011

Silêncio


Gostava de compor
o mais belo de todos os poemas…
Gostava de cantar
a mais bela de todas as canções…
Não sou capaz.
Remeto-me ao silêncio
das coisas apagadas ,
e só consigo
ler e meditar
o meu pequeno livro de orações
em noites sossegadas.

 


Inédito – Maria Helena Amaro
16/11/2010

sábado, 19 de novembro de 2011

Gaivota Velha



Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma doce sereia
que viesse cantar
a mais bela de todas as canções…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de um belo pescador
que saciasse em mim
a fome de cantar…

Se eu fosse gaivota
voava sobre o mar
à procura de uma fada ou duende
que me levasse nas asas
pois as minhas
tão velhas e cansadas
só voam já
sobre o mar de Esposende.

Inédito, Maria Helena Amaro
Janeiro, 20, 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sonho



Pode ser pecado
ou heresia,
mas, eu sinto assim:
neste Céu estrelado,
toda a noite a luzir,

eu vejo numa estrela esse - teu rosto
tão puro, enamorado,
para mim, a sorrir…

Então, digo: Boa Noite!
Boa Noite, meu Amor,
e vou dormir...


Junho, 2010
Inédito, Maria Helena Amaro

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Coisas minhas


A Aldeia de meus pais fica na Beira,
terra fria de gente boa e sã,
tão pertinho da Serra da Lousã,
apaixonada pelo Rio Ceira.

Vem-lhe da serra o cheiro maneirinho,
a castanha, a mel e a mimosa;
Tem a graça, a frescura de uma rosa,
a florir por entre o rosmaninho.

Terra dos meus avós, memória doce,
dos olivais cinzentos, sem idade.
Vem da nascente da Senhora da Piedade,
tem nome de água, chama-se Foz de Arouce.

Arouce e Ceira buscam o Mondego,
deslizam por encostas em sossego
e, na descida, fazem um só laço.

Está Coimbra a sorrir à sua espera,
noiva vestida de rendas, de quimera,
a estender-se num amoroso abraço.




Inédito, Maria Helena Amaro
Abril 2011

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Menino Azul

Era um menino
De rosto enfarruscado
De narizito sujo
De riso cristalino
Suave imaculado
Como branco sedoso
Dos lírios do jardim…

E o menino gostava do Azul…
Quando passavam aves
Sob o Sol diamantino
Brilhavam como sóis
As escuras meninas
Dos olhos do Menino!...

Maria Helena Amaro
In «Maria Mãe», 1973

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Crianças


Quando elas passam
Alegres de mãos dadas
De faces prazenteiras
A rir
Às gargalhadas
De laçarotes brancos
De bibes engomados
Ou descalcinhas, sujas,
Magras, esfarrapadas,
Eu escondo entre as mãos
Os meus olhos cansados
De andar outros caminhos
De procurar estradas…


Quando elas passam
De bolsa a tiracolo
De calção curto e camisola bordada
De riso quente
A ecoar nos céus
De olhos gaiatos a espelhar o sol
Entoando canções,
Quedo-me toda de alma ajoelhada
Murmurando canções…



E porque nelas vejo a primavera
A prometer Estio,
Quando as vejo passar
A rir, a saltitar,
É como se passasse
Nesta rua sem sol
Sem paz e sem amor
A promessa serena 
Dum amanhã melhor!

Maria Helena Amaro
In: Maria Mãe,  1973

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Voo







Tantas vezes voei e me perdi,
e me perdi,
em voos sem alento.                            
Perdi as asas
no furor do vento,
e as asas perdidas,
ninguém as encontrou…


Tantas vezes voei como gaivota
que procura,
e não encontra a praia apetecida…
Perdi o voo
e não mais me encontrei,
e na maré que vai,
e na maré que vem,
apenas te encontrei
Ó meu Amor
e mais ninguém!

Inédito - Maria Helena Amaro
Braga – dezembro 2009.